Diário
Terça 29 de Dezembro, 2020
O meu retiro de solstício
Umas semanas antes olhei atentamente para a minha Mandala Lunar pessoal e verifiquei que o solstício seria segunda, dia 21, também dia de Tara e o início do ciclo maya IK.
Os dias de Tara, 8º dia do calendário lunar, são sempre dias muito auspiciosos e recomenda-se fazer a sadhana completa a Tara Verde com oferendas renovadas e Tsog (noutro artigo falarei sobre o Tsog).
O ciclo Maya Ik é um período de 13 dias em que as forças cósmicas e telúricas nos convidam a recorrer à força da libertação para ganharmos mais espaço no nosso ser e vidas.
O solstício por si só já é uma data muito especial que deve ser ritualizada, mas combinada com o Dia de Tara e início de Ik, então seria muito mais especial.
Os meus olhos arregalaram! E no meu coração senti a certeza que não podia deixar passar esta oportunidade para entrar em “trabalhos” espirituais.


Nem sempre temos méritos para nos disponibilizarmos a entrar num retiro espiritual solitário. Exige coragem, desapego e a capacidade de dizer não.
Muitos “nãos” às desculpas externas que encontramos permanentemente:
“não tenho tempo”; “não tenho disponibilidade financeira”; “não posso ausentar-me da família”; “precisam de mim”... e quantas mais desculpas?! Certamente saberás umas quantas mais... :)
É o IK bloqueado que não nos permite respirar e viver com liberdade de escolha. Estamos presos às nossas próprias condições que resultam de escolhas dum passado longínquo (incluindo vidas passadas) ou dum passado recente.

Felizmente criei condições para que se tornasse possível entrar num semi retiro de solstício. Digo “semi” porque não me retirei totalmente dos meus afazeres diários e compromissos familiares/profissionais, o que, por vezes, torna-se ainda mais desafiante. Mas o universo conspirou a meu favor e senti que tinha os requisitos mínimos para entrar nesse semi-retiro. A família concordou e apoiou a minha ausência, o que significa que eu não precisava de cozinhar para eles, mas apenas para mim! :)

Foram 3 dias de puro trabalho espiritual, para culminar no encontro de segunda ao final do dia, através da zoom, para prática em conjunto do puja à Tara Verde.
A intenção inicial era puramente pessoal, mas a profundidade das práticas levou a uma intenção mais ampla de cura à Mãe Terra.

Comecei já na sexta com revisões aos ensinamentos sobre Tormas e Tsog... para que no sábado e domingo estivesse inteiramente dedicada a realizar as Tormas e a preparar-me para o Tsog de segunda.


Mas o que são Tormas?

Pensa-se que já vêm do tempo de Buda e até muito antes. Fazia-se oferendas aos seres pacíficos ou não pacíficos, chamados demónios – internos ou externos. Os demónios são todas as forças que criam obstáculos... existem muitos tipos de demónios: os mentais, familiares, doenças ou pandemias, etc... a essência da oferenda é, em vez de lutar, procurar satisfazer essa força e assim torna-la em aliada, ao pacificá-la.
Já falei bastante sobre a importância de não lutar contra os obstáculos (sejam eles na forma de emoções, medos ou outros...) no curso de Mindfulness em 5 Passos, no passo 4 – mindfulness das emoções – na sessão “como sorrir para o medo”. E cheguei a partilhar o método Feeding your demons de Lama Tsultrim Allione no curso a Mandala das 5 Dakinis. E já agora, se ainda não o conheces, aconselho-te muito a leitura do livro com o mesmo nome “Feeding your demons” ou “Alimentando tus demónios” de Lama Tsultrim Allione.

Nesta sociedade e na “nova espiritualidade” alimenta-se muito a “luta”:
lutar contra as emoções e pensamentos...
lutar contra as forças negativas e lutar contra o mau olhado...
lutar contra o cancro e outras doenças ou pandemias...
............................................... ufa, com tantas lutas não admira não estarmos todos exaustos!

Mas ao lutar não será que criamos ainda mais sofrimento?! Estamos a resistir, a criar uma guerra que aparentemente parece trazer benefícios a curto prazo, mas são muito temporários.
Porque resistência é sofrimento!
Qualquer luta contra algo é também uma luta contra nós mesmos. O que está fora está dentro.
Mas não lutar, também não significa acomodar, resignar!


Chöd significa cortar ou libertar, uma prática desenvolvida por uma yoguini tibetana do sec XI, Magich Labdrön. (se fores à página inicial do meu website faz encontrá-la como imagem de rodapé) A essência desta prática é não lutar contra nada... em vez disso fazemos oferendas - incluindo oferecemo-nos a nós mesmos como oferenda absoluta -, a todos os seres, pacíficos ou não pacíficos, irados ou não irados, internos ou externos.
Foi desta prática tradicional que Lama Tsultrim Allione desenvolveu a prática moderna de Feeding your demons.


Mas voltando à Tormas... :)
Na Índia as Tormas eram muito simples, mas quando o Budismo chegou ao Tibete tornam-se gradualmente mais elaboradas.
Antes de Padmasambava levar o Budismo para os Himalaias Tibetanos (sec VIII), praticava-se o Bön no Tibete, uma tradição xamânica muito ligada à Natureza e aos Elementos. Mas nalgumas práticas do Bön mais primitivo recorria-se ao sacrifício de animais como oferendas.
Como no Budismo pratica-se a não violência, esses sacrifícios de animais foram substituídos pelas Tormas. Assim o budismo tibetano deu continuidade à prática xamânica, tornando-a “amiga” de todos os seres.
Tor significa Dar e Ma significa Amor... Dar com Amor, sem apego...

Oferecer Tormas é uma forma de acumular muitos méritos e libertar, pacificar muitos obstáculos. Cria muito karma positivo.
Tradicionalmente, no Tibete, as Tormas eram preparadas com Tsampa e Ghee. E assim que a Torma é consagrada ritualisticamente (através da Sadhana e Tsog) torna-se um objecto sagrado. Deixa de ser um simples bolo para se tornar numa bela, vasta e grandiosa oferenda. É a alquimia do Vajrayana.


Quando se preparam as Tormas deve-se estar num estado mental muito próprio e deve-se usar ingredientes de muito boa qualidade.
Eu preparei uma Torma branca – Kartor – para oferecer aos espíritos pacíficos da Mãe Terra, elementais, donos dum território, nagas, etc... uma excelente prática para se oferecer aos seres que vivem no mesmo território que o nosso ou na terra/casa onde habitamos.
Outra foi para os protetores, Martor... para que continuem a fazer o seu trabalho!
Mais difícil foi preparar o Gegtor, a Torma vermelha, para os espíritos dos obstáculos.
Todas as minhas Tormas são muito rústicas, tal como eu gosto! :)


Na segunda feira, além da sadhana normal a Tara Verde, realizei ritualisticamente a entrega das respectivas Tormas e celebrei o solstício com o Tsog. No Tsog as oferendas expandem-se ainda mais! Há oferendas especiais para as deidades e budas e para todos os seres que não puderam estar presentes nesta celebração.



Tsog do Solstício - 21.12.2020

Quando iniciámos o encontro de Tara Verde ao final do dia, estava cansada, mas o meu coração transbordava serenidade. Foi um encontro muito especial e a Mandala que pintei no final da sessão foi o resultado daqueles dias de entrega profunda. Sinto nela um enorme significado e apesar de já estar ativa no meu altar, será também base para trabalhos criativo-espirituais futuros.

Muito do que partilhei neste artigo pode ser novidade para ti ou não... aceita o que faz sentido e descarta o que, neste momento, não faz...

Estas práticas, na minha perspectiva pessoal, trazem-me empoderamento espiritual.
Fala-se muito de empoderamento feminino, mas empoderamento tem muitos aspectos e níveis, todos importantes. O empoderamento espiritual torna-te mestre de ti mesma.
Não deixas de sentir respeito por todos os mestres e mentores que te inspiram – encarnados ou não... Não deixas de sentir devoção pela Vida e Natureza, que é a nossa maior mestre.
Mas passas a não depender de algo exterior, na forma de poções mágicas ou pessoas, por mais sábias que elas sejam.
Da dependência passamos à interconectividade. Deixamos de entregar o nosso poder ao exterior e passamos a ser responsáveis pelo nosso próprio poder.
Um poder alinhado com o Divido e bem enraizado na Terra, porque através da espiritualidade não desejamos transcender, mas sim reconhecer que somos a imanação da bela e vasta radiância natural através dum corpo bem físico!


E é com estas palavras que escrevo o último artigo de 2020. Um ano intenso que trouxe muitas oportunidades.
Estou imensamente grata por todas as experiências vividas, todos os trilhos que me aventurei a trilhar e me permitiram estar no lugar onde estou hoje. Numa palavra o meu 2020 foi: CONQUISTA! (a vários níveis)
Já sentia que seria um ano em que o meu espírito nómada iria explorar outros territórios mais internos. Não seria um ano para fazer grandes viagens, ao contrário do 2019 que viajei a vários cantos do planeta.
E assim foi... e o mais interessante, sem me mover muito, não muito mais além que o meu jardim!, tanto chegou até mim! :)


Que 2021 nos possa trazer novos caminhos que nos sejam importantes caminhar, a nível pessoal e colectivo. Mas mais importante ainda, que os saibamos caminhar com presença amorosa e vasta gratidão.

E se te fizer sentido, mesmo que seja em modo mais virtual, possamos continuar “unidas por plumas”, seja aqui no diário, cursos online, mapas mayas, encontros zoom ou, quem sabe, visitas presenciais ao meu Templo na Suíça ;)
Sinto que chegará o momento de se criar condições para trabalhos mais presenciais, em lugares especiais... até lá aproveitamos o que e como nos é possível! :)

E volto a desejar,
POSSAMOS VOLTAR À SABEDORIA DO SIMPLES, À BELEZA DO RITUAL E A RESGATAR O VERDADEIRO SIGNIFICADO DO QUE NOS FAZ BEM, EMPODERA E DESPERTA.



No início do novo ano lançarei novas datas para prática, não só da sadhana à Tara Verde, mas também da sadhana Mandala das 5 Dakinis.
Também lançarei novo curso... e a Escola Alquimia Feminina irá lançar nova espiral da Joana Diz. :) Aguarda... _/\_

Escreve um comentário
Liliana
Que bom é ler-te Ana! Mais especial se tornou e inspirador, agora que me preparo para iniciar amanhã um retiro solitário de 5 dias - o meu primeiro. Grata pelas palavras sempre, inspiradoras Liliana
Ana Taboada
Querida Liliana, Muitas benções para o teu retiro solitário! Ah La La Oh! :D
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Ana Margarida Silva
Agradecendo a tua dedicação e partilha! E levando o ritual para o resto das coisas do dia!
Ana Taboada
Querida Ana Margarida, Gratidão imensa pelas tuas palavras. Que o ritual seja a nossa vida! Assim seja _/\_
Lucínia Oliveira
A sadhana de Tara Verde que fizemos no dia 21 foi realmente muito intensa e proporcionou-me muita libertação. Gratidão querida Ana por facilitares este encontro e que seja um novo ano muito feliz e repleto de realizações! _/\_
Ana Taboada
Foi sim querida Lucínia! Grata pela tua presença amorosa e corajosa! Benções mil para o novo ano!!!! _/\_
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