Diário
Sábado 28 de Dezembro, 2019
Plantar... para saber viver

"El duende de la Tierra me viene a decir
Si yo no siembro, me voy a morir...
Sembrar, sembrar para vivir...
Sembrar, sembrar para vivir..."


Eu diria mais, "semear" para saber viver...


Numa époda fast-food e da aspirina para a dor de cabeça, paciência e resilência são duas qualidades em vias de extinção.
Queremos tudo para ontem para chegarmos mais rápido ao amanhã.
Além de ser um "amanhã" que nunca chega ao "hoje", ainda vivemos na ilusão que se chegar, os problemas deixarão de existir.
Mas não me refiro apenas aos ensinamentos de mindfulness... porque até o "aqui e agora" se tornou fastfood e moda.

Será que nos tornámos vítimas da tecnologia e da vida que corre à velocidade da luz?

Caminhando a passos largos para um materialismo exarcebado, seja este grosseiro ou mesmo espiritual? Sim, virámos "espiritos famintos" permanentemente insatisfeitos. Queremos mais e mais, seja ao nível puramente material ou mesmo mais espiritual...
...a casa tem de ser maior... o vestido já não está na moda... a comida tem de ser gourmet... o chocolate não pode acabar... as relações já não são interessantes... o conhecimento tem de se acumular até transbordar...
Até ser espiritual passou a ser moda...  

Não estaremos a caminhar em direção oposta à nossa natureza? E não será a nossa natureza parte integrante e equanime de toda a Natureza?

Mas em vez disso achamo-nos superiores, tornámo-nos manipuladores e controladores.
Ficamos facilmente na superficialidade... temos medo da profundidade...
Preferimos controlar... mudar o que não nos convém... resistir o que nos traz vulnerabilidade.


E poderia continuar...
O iogurte vem do frigorifico, que por sua vez nasceu e cresceu à velocidade da luz no supermercado.
O chá compra-se online, mas esquecemo-nos do caminho que teve de percorrer para chegar desde a India ou outro país além mar. Esquecemos do preço que pagamos para ter uma vida "mais fácil"... esquecemos que perdemos a qualidade da magia, do encantamento, do brilho nos olhos, do sorriso que vem do coração. Porque esquecemos que demora tempo a ir fundo... requer tempo para abrir completamente... exige tempo e dedicação, amor e consciência, para semear, germinar, ver crescer, cuidar, colher... 



O ano 2019, que marca o final desta década, foi de profunda reflexão e, além de muitas questões, permitiu-me encontrar muitas respostas. 

Há uns dias passou por mim este texto de Paulo Coelho em Brida. Li este livro na minha juventude e, como muitos outros ao longo da minha vida, não tinha ainda a maturidade para absorver a profundidade de tudo o que era partilhado. Mas acredito no potencial da semente... sementes de sabedoria e amor que muito pacientemente aguardam por melhores condições para germinar. E como a vida é bela simplesmente porque é tão amorosamente paciente!

"Um texto anónimo diz que cada um de nós, na sua existência, pode ter duas atitudes: construir ou plantar.
Os construtores podem demorar anos nas suas tarefas, mas um dia terminam e acabam por ficar limitados às suas próprias paredes. A vida perde sentido quando a construção acaba.
Os que plantam podem sofrer tempestades e poucas vezes descansam. Mas o jardim jamais cessa de crescer e, ainda que exija a atenção do jardineiro, também permite que a vida seja uma grande aventura.
Na história de cada planta está o crescimento de toda a terra."
Paulo Coelho, Brida

És um construtor ou um jardineiro?

Quando inicias um projecto és os "construtor" ou "jardineiro"? És paciente a cada espera? Cultivas a resiliência a cada obstáculo? Ou preferes não perder tempo e imediatamente tomar a aspirina para adormecer os sintomas?



Adormecidos pelas luzes artificiais dos tempos modernos, entorpecidos pela própria ganância da insaciável insatisfação, deixámos de ter capacidade de apreciar a beleza do que é e do que ainda não é...
...perdemos a visão pura que reconhece a mensagem de cada cor...  a magia do arco-íris... deixámos de olhar para as estrelas como guias no nosso caminho...
...o riso tornou-se forçado e cada vez menos genuíno... precisamos de motivos para rir e as gargalhadas não se soltam de forma espontânea.
...as lágrimas são inconvenientes e as emoções congelam-se para não darem muito trabalho. 
...cegos pela luz exterior, esquecemos de como cultivar o sol interno... como cultivar a chama-sol de amor puro do nosso coração... mas também como cultivar o poder interno sagrado no nosso ventre...
Nesse sono profundo inconsciente, deixámos de ouvir a canção que embala o nosso ser. Deixámos de acreditar no que não vemos. Deixámos de sentir para além da razão.
O medo vende bem, ganha massas e como uma epidemia aprisiona muitos corações.
As decisões vêm do medo...  e até o amor vem do medo... e somos folhas ao vento sem propósito e direção.
A razão acha-se dona de tudo e todos, vai para o poder e chama de louco quem é sábio.
Porque saber é mais importante que o confiar no não-saber.


Numa vida cada vez mais desenfreada, como descomplicar?
Como simplificar o que originalmente já é simples?
Como simplificar sem perder a profundidade?
Como simplificar com verdade e significado?  
 


Esquecemos de cultivar... plantar... semear...
...o que nos faz bem de verdade... do mais cru e genuíno.
...o que traz harmonia e serenidade... do mais simples e autêntico.
semear dentro... para semear fora...
semear para apreciar a beleza do que é e do que ainda não é...
semear para acreditar no potencial da semente...

semear com respeito e equanimidade para sermos co-criadores da magia da Grande Criação.
semear com paciência e resiliência porque é tão importante a vida, como a morte.
semear com sabedoria para contribuir para a homeostase ecológica, social e geobiológica planetária.  


Semeemos então... sonhos lúcidos... amor consciente... presença profunda... comunicação autêntica...
Porque somos sementes de sabedoria à espera de germinar.


Seja qual for a prática que abraces no teu caminho que esta te ajude a germinar a semente que és, sempre foste e sempre serás.
Que esta te ajude a ser o jardineiro da tua vida. Cultivando e cuidando do teu jardim interno e externo.
Yoga, Meditação ou qualquer outro ritual que tragas ao teu dia a dia, que seja para cultivar sementes de presença, amor, escuta, visão, autenticidade, verdade, consciência, conexão, equanimidade... caminhando para a tua natureza que é pureza e simplicidade.




Que plantei nesta última década?
Que vi crescer, florescer?
Que frutos colhi? Que vi cair? Que aprendi? 
Que desejo plantar para 2020?




E recorda-te "queres ser o construtor ou o jardineiro"?
O jardineiro não descansa a sua atenção plena e a sua consciência amorosa, mas vive a cada momento a magia do seu jardim, porque seja qual for a estação a beleza nunca se esgota e a abundância nunca tem fim.
O jardim nunca lhe pertencerá mas dar-lhe-á tudo o que precisa. E sentir-se-á genuinamente rico... porque cada semente que planta ensina-lhe o milagre da vida... e na história de cada planta reconhece o crescimento de toda a terra.

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