Diário
Terça 19 de Janeiro, 2021
Descolonizar o corpo feminino
No passado sábado senti um enorme desejo em ir comprar uma nova planta de interior para o meu Templo. Talvez convidada pela energia Maya de Lamat que iniciava nesse dia.
Haviam muitas, tão belas, mas uma chamou-me mais. Chama-se Aeschynanthus com lindas flores vermelhas.
Assim que cheguei a casa pesquisei mais sobre esta planta, não só para a conhecer mais e assim cuidar melhor, mas também perceber o motivo que me fez sentir tão atraída por ela.
Parece que tem origem na Malásia e chamam-lhe Planta-Batom porque as suas flores recordam um batom, neste caso bem vermelho :)
Toda a beleza, sensualidade e radiância que ela emana são notórias, o que estaria mais oculto seria a mensagem profunda que ela me trazia.
Muito provavelmente ainda não reconheço totalmente o motivo de ela me ter escolhido, mas sem duvida que esta planta batom-vermelho me fez sorrir. E quando tive consciência do que se passava em Portugal com o #batomvermelho então aí soltei umas boas gargalhadas espontâneas ao modo de Ana Taboada.


Nós mulheres, ao longo de milénios, fomos castradas e domesticadas pelo patriarcado. Eu sei, já deves estar cansada deste assunto. Mas a verdade é que infelizmente ainda é e será assunto porque ainda temos e teremos muito que curar, equilibrar e harmonizar.
Atenção que patriarcado não são os homens, mas sim uma sociedade onde domina o pensamento, o comportamento e a visão masculina completamente disfuncional e desequilibrada.
Sejamos honestas, quantas mulheres ainda sofrem porque os seus corpos não encaixam o que esta sociedade dita como “corpo belo” e “corpo fitness”?
Essas mulheres sofrem profundamente ao nível emocional e psíquico, mas não só... muitos desequilíbrios físicos e doenças são consequências destes demónios da sociedade moderna.

A sexualidade e a medicina e tantas outras artes e ciências tão belas viraram indústrias alimentadas pelo patriarcado. As industrias visam a produção em massa porque o mais importante é o poder, dinheiro e fama.
Ainda existem profissionais que vivem a arte e a ciência do seu oficio, mas cada vez mais raros... porque o que conta é a produtividade, a popularidade, o controlo e, claro, o dinheiro.

A industria pornográfica manipulou e ainda manipula meio mundo exibindo puro veneno. Os jovens (e não só) acreditam que aqueles corpos são os mais sexys e que aquela sexualidade é a que deve ser. A vagina ou o pénis deve ser como aparece nesse vídeos e fotos de revistas e caso seja diferente já é defeituoso.

A industria farmacêutica conquistou a medicina e criou a maior fonte de manipulação e poder. O Suíço médico e alquimista Paracelso (sec XV e XVI) dizia que a sua melhor medicina tinha sido ensinada pelas bruxas e curandeiras que nessa época perseguiam e matavam.
Em tempos antigos a medicina era uma arte e ciência transmitida pelas curandeiras, parteiras, alquimistas... muitas e muitos foram queimados, enforcados, reprimidos... mas felizmente, muitas e muitos estão agora a renascer com raízes mais fortes que nunca! :)

A industria da moda já se sabe os estragos que fez e ainda faz... E a industria do fitness não fica atrás vendendo modelos de corpos e de exercícios que não são nada saudáveis para a saúde feminina. Mas a indústria do yoga também não deixa de ser "indústria" com tudo de mau que esta nos traz.

Por último menciono a "industria" da religião que, como bem sabemos, foi e ainda é uma grande colonizadora de mentes, corpos e corações.

Nós, portugueses e portuguesas, carregamos um enorme karma por tudo e todos que colonizámos.
A Mãe Terra é o feminino e juntamente com tantas mulheres, foi violada, manipulada, explorada (e ainda é).

Urge descolonizar o feminino e os corpos femininos.
Que história herdamos e trazemos gravada nos nossos corpos?



Se em 2019 aprendi muito sobre fertilidade, gravidez, parto e pós parto na minha formação de Yoga-Doula, complementada com outros cursos.
O ano 2020 foi para mergulhar na Ginecologia Natural e Ancestral, auxiliada com o estudo e prática das minhas aliadas verdes e da herbolária ancestral.
Fiz várias formações com Lalita da Colombia que me habilitaram a poder transmitir os seus conhecimentos. E com mais duas mulheres colombianas aprendi muito sobre Ginecologia Muisca e uma nova abordagem da anatomia e fisiologia do corpo feminino.
Como bióloga senti-me fascinava por todos estes temas e sem dúvida que foi marcante constatar que muito do que estudei na universidade (e não só) é uma visão puramente patriarcal.

A primeira questão é:
quem escreveu a nossa história?
Por muitos milénios a tradição oral era a predominante e maioritariamente feita pelas mulheres.
E durante muitas dezenas de séculos só os homens de poder podiam aprender a ler e escrever porque achavam que “as mulheres que leem são perigosas”. E portanto não só o conhecimento escrito era acedido apenas por esses homens, como também só eles o podiam escrever.

Então, quem escreveu a nossa história?
Os conquistadores e colonizadores de corpos, mentes e corações...



A anatomia e fisiologia do corpo feminino, a sexualidade e a menstruação, a maternidade e a ginecologia foram escrita pelo patriarcado.
É vital desmistificar, ressignificar e reescrever para contarmos a história do feminino pelo feminino. O sagrado corpo, a sagrada sexualidade, a sagrada menstruação e sagrada Mãe Terra desejam renascer!

Guardamos nas nossas células muitas ideias equivocadas, esquecemos o verdadeiro significado e precisamos de despertar desse sono profundo.

Muitas foram as formas em que o corpo da mulher, em diferentes aspectos, sofreu invasões, grosseiras ou subtis.
A menstruação tornou-se tabu. A sexualidade feminina reprimiu-se. Os órgãos femininos passaram a ter funções redutoras estritamente biológicas e os seus nomes estão muito longe do que significam de verdade.

Alguma vez te questionaste de onde vêm certas palavras como por exemplo: trompas de Falópio, vagina, seios, útero?!
Em nada estas palavras dignificam o corpo feminino!

O corpo feminino, tal como a Mãe Terra, é maravilhoso na sua complexidade que ao mesmo tempo é tão simples e bela!
Mas o primeiro passo é tomar consciência que foi colonizado ao longo de muitos séculos...


No final do ano senti um enorme chamado em criar um novo projecto intitulado: Descolonizar o Corpo Feminino – Ressignificar para Empoderar.

A ideia é através de vários encontros em formato de círculos de mulheres online, iniciarmos uma viagem tendo como mapa os nossos corpos femininos. Como guardiã desses círculos irei contar histórias, não só aquelas que ouvi enquanto me formava em Biologia na Universidade de Coimbra (e não só...), mas mais importante aquelas que resgatei não só ao ouvir várias tradições ligadas à Terra e à Medicina Ancestral, mas também ao ouvir os sons mais profundos do meu próprio corpo a despertar ao longo de quase 30 anos.
Tendo como base as “novas” e “velhas” histórias iremos ouvir o que cada uma tem para contar e, muito importante, reescrever a história dos nossos corpos não só através da escrita, mas também pelo toque, desenho, movimento, som ou outra expressão artística que ajude a mulher a trazer novo significado e a se empoderar.





Iremos viajar pelos 9 orifícios da mulher, pelas mamas, o sangue menstrual e a menstruação, a matriz e os ovários, a vulva e a sexualidade, o ventre e o cálice pélvico, a menopausa... Juntas iremos descolonizar o corpo feminino!

A planta-batom incentivou-me a avançar com este projecto que, por falta de tempo, estava em modo de espera.

E tu o que sentes sobre este assunto?!

Em breve direi mais! ;)


Ah La La Oh!

Todas as semanas lanço um novo artigo aqui no Diário, se gostarias de receber um aviso por email, por favor, envia-me email para ana@anataboada.com com o assunto: Diário!

E espreita a Agenda que está com ótimas novidades para 2021!
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aida oliveira oliveira
Gostei muito desta reflexao tao abrangente e verdadeira que toca em questoes realmente importantes e muito significativas para a evolucao da mulher e sobre o papel da mulher nesta sociedade. Muito agradecida por ter conhecido a Ana Taboada e poder beber um pouco destes conhecimentos tao ricos e nutritivos. Um enorme BEM HAJA querida Ana Taboada!
Ana Taboada
Grata querida Aida! _/\_ Ah La La Oh! :)))
Ernestina Martins
O que sinto sobre este assunto? ...que como sempre estás no caminho certo...nem sempre comento ou respondo mas este assunto fez muito eco cá por dentro...à medida que ia lendo, era como se estivesse a viajar no tempo e sentisse e ouvisse a Mãe Terra e o sofrimento das nossas ancestrais...Ana, nunca me cansarei de te dizer o quanto sou abençoada por te ter conhecido e felizmente a distância, ( as saudades estão cá sempre) é só física pois continuas um SER SEMPRE PRESENTE...KEEP ON..Abreijos de LUZ
Ana Taboada
Grata pelas tuas palavras querida Ernestina... Dão-me tanta força e motivação para continuar! :) Possamos descolonizar o Feminino! Ah La La Oh! _/\_ Até breve ;)
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